O que causa a musculatura dupla em bovinos?

O fenótipo da musculatura dupla pode ser observado em muitas raças de bovinos de corte, mas é comumente encontrado em raças europeias como Piemontês, Limousin, Blonde d´Aquitaine e Belgian Blue. Provavelmente, você já se deparou com fotos de touros de uma destas raças com a traseira muito musculosa, pois são muito famosas.

O que é?

A dupla musculatura ou hipertrofia muscular é uma condição hereditária em bovinos, sendo relatada também em outras espécies, como ovinos e suínos. O termo “musculatura dupla” pode gerar confusão, uma vez que não há duplicação dos músculos como o nome parece sugerir, mas sim, a hiperplasia (aumento do número) e hipertrofia (ampliação) das fibras musculares.1

Esta característica em bovinos é causada por mutações gênicas que resultam na perda da função da proteína miostatina, responsável pelo desenvolvimento da massa muscular esquelética. Nos animais com a condição de musculatura dupla, o aumento relativo da hipertrofia é observado desde o início da gestação, verificando-se o nascimento de bezerros com o número de fibras musculares duas vezes maior que bezerros sem a mutação.2

Em comparação a animais normais, os bovinos com dupla musculatura apresentam características como: boa conversão alimentar; trato gastrointestinal reduzido; redução na proporção de osso e de gordura e um aumento significativo na massa muscular, observado principalmente na região do quarto traseiro, onde os músculos são protuberantes, com os limites e contornos bem visíveis sob a pele. Estes fatores refletem em um rendimento de carcaça melhor e maior proporção de músculos, podendo haver aumento de 20% na musculosidade.1

A modificação da composição corporal de animais com dupla musculatura não é uniforme em todo o corpo, coexistindo regiões que são “altamente hipertrofiadas”, outras “hipertrofiadas” e até “hipotrofiadas”.1 Quando animais com a musculatura dupla e animais sem a mutação criados nas mesmas condições são comparados, não se observa grandes discrepâncias entre os pesos de abate dos dois.Isto é reflexo dessa distribuição de musculosidade irregular, associada ao fato dos ossos desses bovinos serem mais finos, da pouca gordura de cobertura e do trato digestivo menor. As diferenças estão muito mais relacionadas ao preenchimento de músculos no quarto traseiro da carcaça.

O outro lado da moeda é que a musculatura dupla está associada com vários problemas, como redução da fertilidade das fêmeas; genitália infantilizada dos reprodutores (machos e fêmeas); retardamento da puberdade; aumento da sensibilidade ao estresse; susceptibilidade a doenças respiratórias; baixa viabilidade do bezerro; anormalidades, como língua hipertrofiada; e principalmente, a necessidade de cesariana para contornar a alta incidência de distocia.2

Apesar deste cenário, alguns produtores em todo o mundo relevam os custos com tais problemas e fazem a seleção de animais para o fenótipo da musculatura dupla, levando em consideração os possíveis ganhos com a criação. Existem vários relatos de que a carne proveniente destes bovinos é muito macia e com menor quantidade de colágeno. Na Europa, os cortes de animais com esse fenótipo são considerados premium e vendidos com um preço diferenciado.1

Nelore Myo

A linhagem Nelore Myo está sendo criada em Araçatuba- SP e envolve o soma de conhecimentos de profissionais da USP e UFRJ, e 12 anos de pesquisa. Essa variedade brasileira de Nelore nasce sob a promessa de aumentar a produtividade dos rebanhos.

A introgressão de genes é feita pelo cruzamento de touros Belgian Blue (homozigotos para a mutação) com vacas Nelore por meio de inseminação artificial. Depois são feitos cruzamentos subsequentes das fêmeas heterozigotas (possuem a mutação em apenas uma das fitas de DNA) com touros Nelore. Assim, na quinta geração obtêm-se um Bezerro 99,99% Nelore e, segundo os responsáveis pelo desenvolvimento da linhagem, com um aumento na musculosidade de até 10%.

Em conversa com o Carne com Ciência, a Bióloga e Mestre em Zootecnia pela UEMS, Arianna da Silva Costa Urquiza, afirma que podem existir várias mutações no gene da miostatina que acabam influenciando nessa hipertrofia muscular, no entanto, a mutação nt821 é a mais impactante e por isso, a mais estudada. A bióloga realizou pesquisas durante seu mestrado desenvolvendo e validando testes moleculares para identificação do genótipo da musculatura dupla. Estas ferramentas moleculares são muito importantes neste caso, para que se possa realizar o controle dos heterozigotos e direcionar a seleção desses animais.

A produção de animais com musculatura dupla

A terminação de bovinos heterozigotos pode ser realmente interessante, já que ocorre um incremento na proporção de músculos na carcaça. Somado a isto, vários estudos observaram animais heterozigotos com acabamento de gordura subcutânea adequado para o abate (diferentemente dos homozigotos que tem cobertura de gordura ausente).4

Por outro lado, o impacto reprodutivo que pode ser gerado nas raças ou linhagens que vêm sendo selecionadas para musculatura dupla ainda é uma incógnita. A princípio, já se sabe que mesmo em heterozigotos há redução significativa do perímetro escrotal, refletindo em baixa fertilidade dos machos.4 Já a incidência de partos distócicos, para as fêmeas na condição de heterozigose, ainda não foi bem documentada. Portanto, a tomada de decisão quanto à criação de bovinos com este fenótipo deve ser muito consciente e colocando na balança todos os pós e contras, principalmente quanto às condições de vida e bem-estar, seja de reprodutores e matrizes ou de animais para terminação.

Além disso, a produção desses animais implica em algumas adequações também na indústria, devendo se atentar para padronização dos cortes do traseiro que possuem tamanhos e rendimentos diferentes de animais normais. Adaptações a todas estas condições citadas podem garantir uma produção justa e lucrativa para os diferentes elos da cadeia.

Referências

1ARTHUR, P. F. Double muscling in cattle: A review. Australian Journal of Agricultural Research, v. 46, p.1493-1515, 1995.

2ARTHUR, P. F.; MAKARECHIAN, M.; PRICE, M. A. Incidence of dystocia and perinatal calf mortality resulting from reciprocal crossing of double-muscled and normal cattle. The Canadian Veterinary Journal, v. 29, n. 2, p. 163, 1988.

3 AZEVEDO, A. l. Cientistas brasileiros desenvolvem rebanho musculoso com 10% a mais de carne, 2017.

4URQUIZA, A. S. C. Avaliação e aplicação de métodos de genotipagem para estudo da síndrome da musculatura dupla em bovinos da raça Senepol. Dissertação – UEMS,  2017.

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