Gourmetização: Faz bem para a cadeia da carne bovina?

Opa! Antes de começar, gostaria de dizer que estou muito feliz em poder dividir com você também por aqui um pouquinho do que venho aprendendo acerca do assunto que somos apaixonados.

Após compreender que nosso Brasil Continental se relaciona com a carne das mais diferentes maneiras, o Território da Carne colocou a mochila nas costas e foi conhecer de perto como isso acontece no Norte, Nordeste e Sudeste do país – nasceu então o TC na Estrada: Uma Zootecnista; Um carro; mais de 6000 km, 13 Estados, + de 30 cidades e muita vontade de entender melhor a relação do homem com a carne!

Confira mais em: www.instagram.com/tcnaestrada.

Durante esta experiência, estou abordando com intensidade o tema “Está a ‘Gourmetização’ ajudando ou atrapalhando a difundir a carne bovina e seu consumo em território brasileiro?”.

Bom, é um tema complexo e todos nós que, de alguma maneira, estamos inseridos na cadeia, desejamos muito que a carne seja vista como deve e seja consumida de maneira consciente, com sinergia entre as personagens da cadeia e assim viveremos em um sistema ganha-ganha-ganha.

Ganha o consumidor, por acessar uma carne de qualidade superior a um preço justo, ganham os entrepostos e varejos por comercializarem com mais facilidade, ganham os frigoríficos por darem mais vazão a todas as porções do animal, seja via mercado interno ou até mesmo exportação, ganham os pecuaristas, que produzirão com o devido cuidado de manejo, nutrição, genética sabendo que a remuneração será equivalente a isso.

Não se sabe ao certo quando o homem passou a utilizar bovinos, mas na pré-história europeia, há cerca de trinta mil anos, já eram caçadas espécies selvagens. Acredita-se que o boi tenha sido um dos primeiros animais domesticados, devido a sua utilidade na agricultura. Em 5000 a.C. os babilônios possuíam gado vacum, assim como os egípcios em 3500 a.C. Fonte: Correio Gourmand.

Mas e aí, este BOOM da carne bovina de uns anos para cá, com o aparecimento de “novos” cortes, preparos, cursos, embalagens, marcas, veio para ajudar ou atrapalhar o consumo deste produto milenar?

Não podemos deixar de apontar as duas faces e precisamos ficar atentos aos sinais: De um lado a ’gourmetização’ – chame também de repaginação dos cortes já existentes ou reapresentação com preparos inovadores – aguça a curiosidade do consumidor moderno, ávido por novidades, agrega valor ao produto, que passa a ser visto como uma experiência e não mais um alimento, populariza informações e conhecimentos técnicos, principalmente quanto aos mais importantes fatores sensoriais a se preservar quando se busca uma carne de qualidade – maciez, odor, sabor, cor, etc.

Contribui também o aparecimento de chefs jovens e criativos, divulgando receitas com cortes e/ou porções do animal menos difundidas. Eles dão um novo visual para o que antes tinha um menor valor agregado, como o acém, o pescoço, o peito, a rabada, o mocotó e até mesmo a bochecha bovina. Isso mesmo, pratos com estes ingredientes já são encontrados em restaurantes renomados e às vezes pelo mesmo preço de pratos com carnes antes consideradas mais nobres!

É aí que eu pondero o outro lado desta “gourmetização”: Será que a exploração destes pratos com cortes e/ou os chamados “miúdos” divulga ou acaba inviabilizando o consumo em casa por aparentar ser um preparo complexo, que requer técnica e conhecimento? “Só fica bom por que o Chef preparou, se eu fizer em casa, não terá o mesmo resultado” ou então: “A velha e conhecida rabada agora tá mais cara para preparar em casa porque o rabo está na moda e subiu de preço no mercado”, entre outros comentários que tenho escutado.

Portanto, em meio à Era da Informação e desta Revolução Digital, acredito que explorar melhor todos os cortes do animal – incluindo os miúdos – só tem a contribuir para a cadeia, que ainda vive um desequilíbrio em algumas etapas.

Demonstrar aquilo que já é sabido, “quando o boi é de primeira, não existe carne de segunda” e incentivar o consumo consciente, ou seja, menor quantidade, mas de melhor qualidade – e consequentemente valor agregado – são fundamentais para nos fortalecer e, cada um com seu know-how, usar e abusar da criatividade para informar esta nova classe de consumidores e MeatLovers.

Termino este texto destacando que, como tudo na vida, o ideal é buscarmos o equilíbrio. Nós, apaixonados por carne, não podemos deixar esta onda passar sem surfarmos nela, mas tomando cuidado, pois quanto maior a onda, maior pode ser o tombo!

Um grande abraço, Andréa Mesquita – Território da Carne

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