Como pasto vira carne: a natureza atuando para nos alimentar!

Ruminantes e microrganismos trabalham juntos!

A natureza é perfeita! E as criações da natureza, mais ainda! Dentre estas criações espetaculares estão os Ruminantes: mamíferos herbívoros que possuem o estômago dividido em compartimentos (rúmen, retículo, omaso e abomaso). Após ingerem os alimentos, regurgitam, remastigam e engolem novamente, para que os nutrientes sejam absorvidos.

Falando assim, nada parece tão espetacular. Mas o segredo destes animais é que a mágica da transformação do pasto em carne é fruto da simbiose destes animais com uma fauna de microrganismos riquíssima!

Mas, afinal, o que os ruminantes possuem de diferente?

Basicamente, o sistema digestivo e a maneira como os alimentos são transformados em nutrientes, são os pontos cruciais na diferenciação dos ruminantes para os monogástricos (nós, cachorros, aves, gatos, etc).

Vamos começar do “começo”: o sistema digestivo

A cavidade bucal dos ruminantes é repleta de glândulas salivares e tecido epitelial e conjuntivo espesso, cheio de papilas, de tamanhos e formas diferentes.

O palato duro (céu da boca) está diretamente ligado ao lábio superior. No processo evolutivo destes animais, os dentes incisivos foram perdidos e no lugar ranhuras foram se formando, parecendo “dentinhos” minúsculos, que colaboram no processo de apreensão do alimento e no processo de ruminação.

A língua dos ruminantes atua como um êmbolo, enrolando-se ao alimento e empurrando-o para dentro da boca. A superfície da língua é grossa, o que auxilia na captura dos alimentos (em especial a forragem – pasto).

Estes animais nascem com 20 dentes de leite, que começam a ser trocados por dentes permanentes por volta de 1,5 a 2 anos de idade.

É através da dentição que é possível que se verifique a idade dos animais (assunto para um próximo artigo) e na idade adulta passam a ter 32 dentes permanentes.

esôfago é um tubo cilíndrico que se dilata facilmente e que conduz os alimentos da boca até o rúmen, com o qual se comunica por um orifício chamado cárdia.

No rúmen, retículo e omaso é onde ocorre a digestão microbiana e a ação mecânica sobre os alimentos fibrosos e grosseiros.

rúmen comporta 80% do volume total do estômago e ocupa quase todo o lado esquerdo da cavidade abdominal. Possui parede revestida por uma mucosa coberta de papilas ligeiramente chatas, que lhe conferem o aspecto de “toalha felpuda”.

rúmen comunica-se com o retículo através da goteira esofágica. Normalmente, as bordas da goteira esofágica estão separadas, deixando passar certos tipos de alimento (forragens sólidas, água, etc.), para o rúmen e o retículo.

retículo é o menor compartimento e atua como um “marca-passo” dos movimentos da ruminação. Seu interior é revestido por uma mucosa, cujos relevos dão um aspecto semelhante ao favo de abelha e apresenta pequenas papilas. Comunica-se com o rúmen através de uma ampla abertura, e com o omaso através de um estreito orifício e ainda com o esôfago através da goteira esofágica.

omaso ou folhoso, cujas paredes são musculosas, tem seu interior revestido por mucosa disposta em folhas ou lâminas, lembrando um livro, cobertas por numerosas papilas rugosas.

No Abomaso é onde ocorre a secreção de suco gástrico e onde se processa a digestão propriamente dita. De forma alongada, está situado à direita do rúmen e repousa sobre o abdômen, logo atrás do retículo. Um amplo orifício permite a passagem do alimento proveniente do omaso. Internamente, o abomaso é revestido por uma mucosa lisa, que contém numerosas glândulas que secretam o suco gástrico.

A boa vizinhança

Para que os ruminantes consigam usar os alimentos que ingerem, este alimento precisa ser previamente transformado.

Como se fosse uma fábrica, o estômago atua triturando, misturando e transformando o alimento através de movimentos mecânicos, ação química das enzimas liberadas pelo abomaso e pela ação dos microrganismos presentes no rúmen, retículo e omaso.

Os microrganismos (bactérias, protozoários e fungos) vivem em relação de simbiose com o hospedeiro (animais ruminantes), ou seja, todos ganham alguma coisa.

Como os ruminantes não conseguem retirar do alimento os nutrientes necessários para sua sobrevivência, os microrganismos que vivem dentro trato digestivo, que são capazes de sintetizar compostos a partir do alimento que o animal consome, usando essa função para sua própria sobrevivência e em troca libera os nutrientes que os ruminantes precisam para sobreviver.

Preparação para a magia…

Quando nascem, os compartimentos do estômago dos ruminantes são pequenos e não funcionais. O abomaso (que é o compartimento químico do estômago dos ruminantes) é responsável por realizar a digestão enzimática do leite que os bezerros consomem.

Nos bezerros recém-nascidos, enquanto a dieta for exclusiva com leite, o rúmen, retículo e omaso permanecem sem função, além de não estarem colonizados por microrganismos.

Durante a fase de aleitamento, o leite passa através da faringe, estimula o sistema nervoso através de receptores e por um impulso sensorial o retículo se contrai, produzindo um tubo temporário que conecta os orifícios, chamado goteira esofágica. Através da goteira esofágica o leite é desviado ao abomaso, onde ocorrerá a digestão enzimática.

Através do contato com a mãe, pastagem, água, saliva de outros animais, os bezerros vão adquirindo os microrganismos que trabalharão futuramente na conversão do pasto em carne (ou leite).

Com o início da alimentação sólida, a secreção salivar começa a ficar mais intensa e os compartimentos do estômago vão se desenvolvendo.

Gradativamente, os compostos resultantes da degradação dos alimentos, vão auxiliando no desenvolvimento das papilas do estômago (que aumentam a área de absorção dos nutrientes da dieta e carreiam estes pela corrente sanguínea).

O abomaso vai diminuindo de tamanho (uma vez que sua atividade reduz) enquanto rúmen, retículo e omaso vão aumentando de tamanho.

A colonização vai acontecendo ao ponto de o animal já ser capaz de sobreviver exclusivamente da energia gerada pelos microrganismos.

Como a magia acontece?

Diferente dos não ruminantes, os animais ruminantes além de possuírem estômago com estrutura anatômica própria para realização do processo de fermentação, permitindo ao animal o aproveitamento de plantas fibrosas, também permitem o desenvolvimento de bactérias, protozoários e fungos, os quais vivem em simbiose com o animal e são os responsáveis por produzir as enzimas necessárias para o processo de digestão das fibras.

O principal alimento dos ruminantes é a forragem (capim). A forragem possui uma parte fibrosa e outra não fibrosa e cada uma dessas partes tem papel fundamental na regulação do consumo e no fornecimento de energia e nutrientes necessários para mantença e produção do animal.

Ao capturar o alimento com a língua, o alimento é levado a boca onde é ligeiramente mastigado e umedecido pela saliva, engolido e chega ao rúmen. No rúmen, os microrganismos englobam a partícula de alimento, liberam enzimas e a degradação é iniciada.

A parede muscular do rúmen faz movimentos contráteis constantes com o objetivo de movimentar as partículas de alimentos, aumentar a degradação pelos microrganismos, além de fazer o movimento de retorno do alimento até a boca, para que ocorra a ruminação.

Na ruminação, os movimentos da mandíbula e a liberação de saliva, reduzem ainda mais e umedecem ainda mais as partículas de alimentos, com isso, a partícula fica mais propensa à degradação.

O alimento ingerido pelo animal proporciona um aporte constante de substratos que é retido por tempo e volume necessário para que os componentes da dieta sejam degradados e fermentados pelos microrganismos ruminais.

O sistema digestivo, altamente vascularizado, absorve os compostos resultantes da fermentação ruminal e são utilizados como combustível de todas as funções vitais (respiração, batimentos cardíacos, entre outros) e produtivas (produção de carne e leite, reprodução, gestação).

Carboidratos, proteínas e minerais presentes na dieta dos ruminantes, são degradados por microrganismos específicos em moléculas mais simples e absorvidos pela corrente sanguínea, levados até órgãos específicos e usados para que, primeiramente, as atividades de sobrevivência sejam supridas e, posteriormente, as atividades de produção de carne (e leite) sejam realizadas.

Veja abaixo alguns vídeos explicando, de maneira bem didática, o funcionamento do sistema digestivo dos animais ruminantes:

Fontes:

Nutrição de Ruminantes – Telma Terezinha Berchielli

Nutrição de Ruminantes: Aspectos Relacionados à Digestibilidade e ao Aproveitamento de Nutrientes – Luís Carlos Vinhas Ítavo e Camila Celeste Brandão Ferreira Ítavo

Você gostou desse artigo? Deixe seu comentário, compartilhe nas redes sociais e inscreva-se aqui embaixo para receber novidades exclusivas!

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *